RESUMO
Síntese da evolução da mulher na sociedade, no mercado de trabalho e na profissão de secretária demonstrando as implicações das transformações dos sistemas organizacionais criados originariamente por e para homens, onde a mulher se inseriu, com os atributos biologicamente naturais e culturais adquiridos e herdados. Os desafios que enfrentou, o crescimento, a evolução, tanto qualitativa como quantitativa dessa inserção, alterações e ascensão num mercado de trabalho em transformação por diversos fatores diferentes, tais como sistema político, econômico, e forma de trabalho que privilegia o conhecimento.
Como conclusão para reflexão a posição da profissional secretária, mulher no mercado de trabalho, os desafios ou alterações da profissão, de comportamento, e o privilégio de ser mulher e secretária, bem como os cumprimentos que se fazem necessários por ocasião do Dia Internacional da Mulher.
Palavras Chaves: evolução, mulher, profissional, secretária, sindicatos.
ABSTRACT
Synthesis of the evolution of the woman in the society, in market of work and in the profession of secretary demonstrating the implications of the transformations of the organizations systems created by and for men, where the woman was inserted, with the biological attributes and cultural acquired and inherited. The challenges that faced, the growth, evolution, qualitative as in such a way quantitative of this insertion, alterations and ascension in a market of work in transformation for factors different, such as system politician, economic, and form of work that it privileges the knowledge.
As conclusion for reflection the position of professional secretary, woman in the work market, the challenges or alterations of behavior, profession, and the privilege of being woman and secretary, as well as compliments that if make necessary for occasion of the International Day of Woman.
Key Words: evolution, woman, professional, secretaries, trade unions.
Secretárias, Mulheres Além da Imaginação
"Há uns 200 anos, Napoleão afirmava: A natureza criou as mulheres para que elas sejam nossas escravas...Elas são nossa propriedade, nós não somos a delas. Elas nos pertencem da mesma forma que uma árvore, que contém frutos, pertence ao jardineiro. Que idéia insensata exigir a igualdade para as mulheres! As mulheres são somente máquinas de produzir filhos." (apud Jongeward, D., Scott,D.)
Qualquer assunto que se queira discutir sobre mulheres nos dias atuais, nos obriga retornar às próprias origens da humanidade, pois até onde nos leva nosso conhecimento histórico, as primeiras comunidades da Antiguidade eram matriarcais, conferindo à mulher papéis e funções muito mais fundamentais do que aqueles atribuídos à mulher moderna.
A mãe interessava-se pelos filhos e havia forte elo entre eles, o elo de sangue. A mais simples forma de organização familiar foi a da mulher com seus filhos vivendo juntos no clã, algo semelhante ao que ocorre no reino animal dos mamíferos, onde a figura do pai é discreta e incomparável à da mãe, que provê com seu leite a sobrevivência dos filhotes, até que eles estejam preparados para enfrentar a aventura da vida.
A mãe não pertencia ao marido, mas ao clã. Conhecendo-se a mãe, mas não o pai, a herança era traçada pela linha materna. Esta linha era usada como meio de traçar a descendência, elevando a importância da mãe no lar e na sociedade.
Com o aperfeiçoamento dos instrumentos de trabalho e sendo estes, em função da divisão do trabalho, fabricados e manejados, principalmente por homens, a organização matrilinear transforma-se num entrave, pois o casamento significava, para o clã do marido, a perda de seu trabalho e de seus bens. Isto leva à inversão da estrutura familiar, passando a mulher para o clã do marido, dando lugar a clãs patrilineares.
Em contrapartida, a fidelidade feminina é exigida e torna-se necessária a fim de que a herança só se transmita a filhos presumivelmente do marido, uma vez que a esposa passa a fazer parte dos bens possuídos por ele.
Com as guerras mundiais a presença da mulher no mercado de trabalho se fez sentir de forma consistente e crescente, originando conflitos naturais de sua ascensão como agente competitivo num sistema sofisticado, desconhecido e dominado por homens.
Enquanto os homens competiam entre si no mundo do trabalho, consolidando, perdendo ou ganhando poder, ou mesmo dominando através da força, as mulheres entravam para o enredo desta história através da simples sedução, da coragem, da habilidade política e da sabedoria.
Com rapidez impressionante a motivação feminina para o trabalho, sempre represada por tabus e preconceitos, emergiu com intensidade num processo auto-alimentado: cada mulher que conseguia vencer o cerco e obter sucesso profissional funcionava como paradigma e fator incentivador para milhares de outras mulheres que ainda não haviam saído de casa.
Porém as restrições ao ingresso da mulher nas carreiras profissionais são, ainda hoje, de três ordens principais:
1 - ela mesma e seu complexo de inferioridade que foi plantado e cultivado em seu espírito ao longo de gerações;
2 - seu lar, que tende a atuar como imã que obstrui a atuação de qualquer força centrífuga que a afaste dos afazeres, tarefas e missões domésticas, consideradas desde sempre, de sua exclusiva responsabilidade, seja ela casada ou não;
3 - o ambiente do mundo empresarial e dos negócios que é, ainda hoje, caracteristicamente, masculino e tende a identificar a mulher que trabalha fora de um ser diferenciado um espécime deslocado, um estranho no ninho.
Especificamente no caso das mulheres, a rigidez da cultura organizacional machista de décadas atrás teve como conseqüência a perda, pelas empresas empregadoras, de excelentes talentos disponíveis no mercado de trabalho.
Esses e outros mitos não sobreviveram na era da tecnologia e da economia de informação, mesmo no sistema capitalista, pois a aglomeração de pessoas num mesmo local, numa mesma hora, para executarem tarefas rotineiras, não se adaptam à era dos trabalhadores do conhecimento.
O enfoque do conflito entre homem e mulher, no mundo do trabalho produz mais atrito que soluções. Além das culturas organizacionais serem ainda hoje, predominantemente machistas, a mulher apesar de enxergar primeiro o executivo, traz em seu subconsciente a educação que vê o homem como provedor, protetor, poderoso. Já o homem, pelo mesmo motivo enxerga primeiro a mulher que na consciência masculina é primeiro objeto de amor, reprodução, proteção, respeito, e depois a executiva, tradição machista que se torna a causa e a solução para o apetite sexual do homem.
Com as transformações no modo de encarar o trabalho, as pessoas estão percebendo que o trabalho, que em suas origens tinha o significado primordial de ascensão social, sobreviver - isso para qualquer classe social - deve ser encarado como uma atividade agradável, produtora de realização pessoal e intelectual e não apenas uma opção de vida, que exclua outras atividades também realizadoras como a construção ou manutenção do lar. Além do que hoje é extremamente difícil sustentar logicamente qualquer tipo de superioridade de um dos sexos sobre o outro, tanto pela crescente evolução da mulher no trabalho, como pelas novas tecnologias que a destacam cada vez mais.
A secretária, tanto quanto outras profissões femininas é há décadas padrão de referência para a visão dos homens com respeito à presença feminina no mercado de trabalho. Ainda hoje o homem é identificado como um líder e um tomador de decisões, enquanto à mulher se reserva a característica de apoio leal ao líder, embora a submissão tenha se transformado em assessoria direta, na maioria dos casos.
Assim a secretária, desafiando todas essas alterações do mundo do trabalho, desempenha atribuições de assistente, assessora, ou auxiliar e está diretamente relacionada com as atribuições de poder e decisão. O executivo embora continue a esperar, mesmo que inconscientemente, ser tratado com carinho, demonstrado pelo cuidado de suas contas bancárias pessoais, compras de presentes familiares, solução de assuntos solicitados pelos filhos, espera também que a secretária o aconselhe durante as tarefas diárias e no preparo de reuniões, além de lhe delegar vários dos repetidos "nãos" que ele próprio deveria dizer diariamente.
Esse comportamento é aceito e cultivado pelas secretárias, quando ouvimos, por exemplo, "meu executivo não faz nada sem que eu esteja por perto...", ou "se não estou lá ele fica perdido".... Isto é facilmente perceptível em dinâmicas de grupo, grupos na Internet, reuniões de discussão e orientação profissional.
Penso que temos muito a comemorar, nesse dia 8 de março, como mulheres e como profissionais. Embora sempre homens e mulheres.... hoje não apenas competimos, mas também compartilhamos conhecimento, informação, de forma a otimizar o trabalho da equipe dentro de um sistema organizacional em fase andrógina, tamanha a evolução da mulher no mercado de trabalho.
Não podemos esquecer que o capitalismo está em cheque, os empregos, cargos, profissões, sistemas de salários também. Não sabemos o amanhã, mas sabemos que queremos um amanhã melhor e temos o passado dos sistemas de trabalho para comparar.
Hoje as secretárias brasileiras são consideradas as profissionais mais bem preparadas na profissão no mundo, conforme notícia do The Guardian(2001), portanto o empresariado não tem do quê reclamar.
Nada mais justo que em termos de salários também possamos comemorar, se relacionarmos os salários das profissionais secretárias com o restante do mercado e outras profissões. Isto se deve primordialmente ao trabalho dos Sindicatos de Secretárias em todo o País, em conjunto com sua Federação Nacional, além de estar sedimentado que a profissão é da era do conhecimento, segundo Robert Reich(1994).
Vejamos a seguir um resumo dos salários dos profissionais se secretariado, divididos em porte de empresas e que em sua primeira coluna, apresenta uma média geral, para cargos mais comuns na profissão:
1 - Média Salarial, por Cargo e Porte de Empresa no Estado de SP
CARGO | GERAL | PEQUENO | MÉDIO | GRANDE |
BILINGUE | 2.892,92 |
| 2.843,67 | 2.896,92 |
DIRETORIA | 3.427,25 | 2.481,00 | 3.155,17 | 3.442,25 |
JUNIOR | 1.446,67 | 1.590,00 | 1.571,70 | 1.411,83 |
PORTUGUÊS | 1.937,50 | 1.446,00 | 1.724,08 | 2.247,25 |
PRESIDÊNCIA | 4.235,33 | 3.994,80 | 4.475,17 | 4.565,83 |
Mesmo com esse indicativo de valorização profissional, o salário, que costuma ser inquestionável, precisamos avaliar em que poderemos melhorar, evoluir, complementar, crescer mesmo, em termos comportamentais, pois alguns aspectos da conduta profissional mudaram em velocidade inferior ao desejado - pois estatisticamente o ser humano é resistente à mudança. Refiro-me, especificamente, ao consentimento mútuo da relação Executivo-Secretária.
No caso do executivo porque ainda hoje, como ser humano ele procura, aceitação e compensações de afeto, no sentido estrito de "alguém cuida de mim" ou "alguém vê o que eu faço", ou ainda "alguém se importa com minha atuação", espera e deseja que a Secretária, pessoa mais próxima no sistema organizacional, elogie seus atos, palavras e decisões.
No caso da secretária, que traz consigo a carga original da mulher no trabalho, juntamente com o instinto primitivo e inconsciente de ser mãe, procura compensações de afeto através do reconhecimento, da valorização, para se sentir aceita.
Este trabalho mais árduo da mudança de comportamento, levando-se em conta a hierarquia existente, deve partir da profissional secretária, e nesse sentido se destacam e merecem elogios as entidades de classe, que perceberam na sua experiência diária no trato com as profissionais, a confusa dualidade mulher/secretária, no mercado de trabalho.
Os Sindicatos e a FENASSEC atuam ininterruptamente para fazer evoluir esse quadro, quer seja junto aos profissionais que representam, através de orientação profissional, cursos de atualização, dinâmicas de grupo, assistência jurídicas e outros serviços, quer seja quando orientam as profissionais sobre seus direitos, aumentando consideravelmente o número de organizações empresariais que respeitam a legislação própria da profissão. Esses trabalhos contribuem também para a valorização, o fortalecimento e a visão atualizada do profissional de secretariado, que venceu todos os desafios políticos, econômicos, tecnológicos até hoje.
Por teste motivo, você secretária recebe hoje diversos cumprimentos: por ser mulher, por pertencer a uma das profissões mais fascinantes do mundo, por estar organizada enquanto profissão perante a sociedade, através de seu próprio sindicato e por ser parte da construção de um Brasil melhor.
Agradeço especialmente a professora Christina Larroudé de Paula Leite, pelo apoio, incentivo e colaboração.
Referências Bibliográficas
Jornal O Estado de São Paulo, Caderno de Empregos, 2004.
FENASSEC, apud, Jornal The Guardian (Britânico), exemplar de 30/04/01,
Leite, Christina Larroudé de Paula - Mulheres: Muito além do teto de vidro. São Paulo: Atlas, 1994
Reich, Robert - O Trabalho das Nações. EUA: Editora Educator, 1994
Moraes, Leida Maria M. B. L. - Observações da autora em seu trabalho com profissionais secretárias em todo o Brasil. 1984-2005.