O conceito de carreira nas décadas de 1960/1970 foi vivenciado de forma previsível, sólida e linear, pois as pessoas esperavam começar a vida profissional até se aposentar em uma mesma organização. Os profissionais manifestavam empenho e lealdade para ascender profissionalmente, mas devido aos avanços tecnológicos, globalização, crises econômicas e flexibilização do trabalho o conceito de estabilidade deixou de existir.

Das décadas de 1946 a 1964 o profissional de secretariado era contratado por empresas que preferiam mulheres para um atendimento servil, com atribuições de atender ligações telefônicas, servir café, organizar papéis, datilografar e controlar agenda. Em contrapartida, a chefia se caracterizava geralmente pelo sexo masculino, branco e de determinado nível sociocultural com carreira na própria empresa, pois era ela quem permitia o acesso ao trabalho e gerenciava o crescimento profissional do funcionário. As secretárias, naquela época, por seus diversos chefes, eram chamadas de braço direito, o que significava que organizavam a vida dele para que pudesse se projetar e crescer na carreira.

Durante a geração X (aproximadamente 1965 a 1976) a hierarquia ainda predominava e as secretárias (mulheres) continuavam atendendo profissionais que obedeciam tais hierarquias. Nesta época o mundo vivia a situação da guerra fria entre potências e a América do Sul era dirigida por sistemas de governo ditatoriais, portanto, continuava a situação de obediência e cumprimento de deveres solicitados pela chefia.

Particularmente no Brasil (década de 1970), Delfim Netto promoveu “o milagre brasileiro” e as multinacionais se instalaram por aqui. Nesta época, secretárias com conhecimentos do idioma inglês se destacavam no mercado, muitas participavam de reuniões em multinacionais com estrangeiros e precisavam fazer as atas em português, mesmo que a reunião tivesse sido em inglês, secretárias que taquigrafavam tinham salários diferenciados. As máquinas de datilografia eram manuais e as elétricas apontavam no mercado e foi solicitado rapidez e precisão nos trabalhos, máquinas elétricas com corretivo dispensavam perdas de papéis e a necessidade de datilografar novamente.

Entre a geração X (meados da década de 1970 até 1989) e Y (aproximadamente 1990 a 2010) houve a globalização, as pessoas foram movidas em busca de desafios e realizações e resolveram ter experiência profissional em várias empresas, iniciando-se um período onde a instabilidade sobrepôs a relativa estabilidade do emprego.

Microcomputadores e notebooks fizeram parte do mobiliário das salas de escritórios e a chefia tendeu a resolver diretamente assuntos diminuindo, assim, o trabalho de datilografia e/ou digitalização para as secretárias. Nesse cenário, surgiram boatos, por parte de algumas empresas, que secretária era algo dispensável. Associações e sindicatos desenvolveram treinamentos em conjunto com cursos de secretariado tanto técnicos quanto universitários para que a categoria pudesse ter outro olhar dentro da capacidade de atuar e contribuir na cogestão de trabalho dentro das empresas, permitindo que a visão da mulher organizadora e servil mudasse para gerenciadora de diversos assuntos e facilitadora de processos, valorizando qualidades como atuação em equipe, eficácia, competência, criatividade, capacidade da adaptação, pró-atividade, resiliência, espírito de liderança e habilidades para relacionamentos, inclusive, entre clientes e empresa.

Ano 2000, novo século, novas perspectivas, o mercado de trabalho começou a não se importar com a contratação quanto a sexo, raça ou origem social do indivíduo, homens se matricularam em cursos de secretariado e o sucesso foi medido pela satisfação e realização pessoal. Novas tecnologias ganharam espaço e aproximaram nações.

Atualmente, convivemos com a geração Z (após 2010) cuja mentalidade e atitude estão se tornando um novo conceito da carreira, em que a capacidade de inovação e flexibilização são fatores importantes, apesar de que o excesso de informação dispersa o foco e leva a vivência de intensas mudanças. O que podemos questionar é como obter e processar informações sobre si mesmo (indivíduo profissional mais independente) em relação ao mundo do trabalho e o papel que desempenha no mercado?

Como se sabe, não é mais a organização ou empresa que determinará o crescimento. Segundo Bete D’Elia e Walkíria Almeida os indicadores de resultado ajudam a dar visibilidade às atividades e ressaltam a importância deste profissional. Há necessidade de reconhecer e desenvolver competências, habilidades e atitudes (CHA), perceber o nicho de negócio e saber atender e lidar com concorrentes para ter e oferecer o que faz a diferença e evitar estagnação. Importante, também, se preparar para aposentadoria, que muitos estão negligenciando, encontrar outros conhecimentos e ocupações, motivar-se para realizar algo que acredita ser capaz de concretizar, não se esquecendo do olhar humanizado e comportamental de si mesmo e do outro, porque não é somente uma ocupação, o mundo pede relacionamentos e “networking”, cujos laços unem o profissional a outros, que é de suma importância para a sobrevivência na interação, modificação e evolução que constitui um novo olhar e principalmente foco para as mudanças reivindicadas na atualidade para a vida profissional.


DIRCELIA MERLIN DOS SANTOS
Secretária Executiva
Conselheira do SINSESP

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