“Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas. / Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / no meio do caminho tinha uma pedra”.
Carlos Drummond de Andrade

Você sabia que mais de 320 milhões de pessoas ao redor do mundo sofrem de depressão?
Assustador, não é mesmo? Mais assustador ainda é pensar no preconceito que essas pessoas sofrem quando mais necessitam de ajuda. Esqueça os julgamentos e conselhos! Apenas abrace e esteja por perto. Embora ela se isole, precisa de você. Esteja de mente e coração abertos. Não é fácil entender mesmo quando se está de fora. Você não precisa entender. Só precisa estar lá. Cuidando para que nada pior aconteça. Viver é uma luta diária. Estar ali é a maior prova de coragem e esforço.

Cuide-se também! Ninguém está imune. Nossa mente precisa de tanta atenção quanto o restante do corpo. Tenha um tempo para você. Observe sua respiração seus pensamentos. Sinta cada pedacinho do seu corpo trabalhando. Relaxe! Tome um chá, caminhe, divirta-se! Não se prive de ser feliz. E quando necessário, chore, e desista por alguns minutos ou dias. Tenha sempre em mente que você está dando o seu melhor. E que tudo que está ao nosso redor merece atenção e cuidado. O tempo é fabuloso da forma que age. E é individual.

Aconteceu comigo:

Sábado, 13h.

Eu desperto pela 3ª vez, mas não encontro forças para sair da cama. Minha barriga está roncando de fome. Já passou do horário dos remédios. O sol queima lá fora, as pessoas riem, a natureza segue seu percurso. Mas eu aqui estou.  Mais uma vez tentando encontrar alguma motivação para levantar. E tenho, estou viva e viva deveria bastar. Mas não. Esse é o verdadeiro peso: viver.

Depois de uma grande luta me coloco em pé. Coloco qualquer roupa, prefiro não escovar os dentes e pentear o cabelo. Afinal, eu não sairei de casa. Eu não quero sair de lá! Então me disponho a fazer qualquer coisa. Limpar o quarto, dar banho nos cachorros, fazer uma comida gostosa. Rapidamente meu cérebro me lembra do esforço que qualquer uma dessas atividades exige. Desisto. Como qualquer coisa e tomo os remédios atrasados. Meu estômago queima.

Chego à conclusão de que estou exausta e preciso descansar. Deito, mas não consigo relaxar. Pego o celular e percebo que recebi alguns convites para sair. Penso que poderia ser legal, mas não tenho disposição. Viro para o lado e tento dormir; consigo finalmente. Desperto algumas horas depois. Tive pesadelo. Meu coração está acelerado e eu ofegante. Minha cabeça dói como forma de dizer que dormi demais.

“Ei, acorde! Saia desse quarto e vá viver! Ser feliz, dar risada e se divertir. Vá ao cinema, saia para comer algo gostoso. Abrace seu animalzinho de estimação!” Ah… E como o abraço desses serezinhos é capaz de acalmar… Percebo uma pequena melhora.

Começo a lavar roupas e, enquanto separo as brancas das coloridas, penso em como minha vida foi diferente um dia. Nos muitos motivos que tenho para agradecer, mas que ainda assim não são suficientes para me animar. Começo a me perguntar como as pessoas conseguem ser tão felizes e despreocupadas. Por um segundo as invejo, mas lembro de que ninguém é o que aparenta ser. O mundo não é! Sinto-me um peixe fora d’água. Não consigo ver interesse em nada nem ninguém. Tudo parece chato e cansativo.

Que dia pesado! Será que está acabando?

Meu coração volta a acelerar e, num momento de desespero, penso em como gostaria de não estar viva. A tristeza domina. Entrego-me e choro. Choro muito. Sinto-me só e desamparada, como se não pudesse desabafar. Sinto que todos estão cansados dos meus discursos e que, por mais que se esforcem, não entendem como é estar naquele buraco. Acredito ser um fardo.

Tenho em mente que o processo é lento, se é que realmente existe. Desisto por diversas vezes, não tenho esperança. Paro tudo o que estou fazendo e volto para cama.

Lembro-me daquele remedinho que me ajuda a dormir. Só desejo parar de sofrer naquele momento. Tomo alguns comprimidos para garantir que não acordarei tão cedo. Adormeço… E quando acordo, já é hora de dormir novamente.  Tomo um banho, reforço o coque nos cabelos e, ainda sob o efeito dos remédios, volto a dormir.

Domingo, 8h.

Desperto. Percebo que sobrevivi ao dia anterior e que agora está tudo bem. Sinto-me melhor e animada.  Faço planos. Levanto, tomo um banho demorado, coloco minha melhor roupa e saio para aproveitar o dia. Almoço com a família, abraço minha avó, brinco com os cachorros, assisto a um filme com o namorado.

Como é bom viver! Como é bom ser amada! Lembro-me do pesadelo que foi o dia anterior. Medo. Desejo não passar por aquilo novamente, mas sei que vou. Uma hora tudo volta. É a lei da vida e da doença. Tento mudar os pensamentos e viver aquele momento. Sei que o mais importante é não atropelar as coisas com paranoias. Viver um dia de cada vez é primordial. O amanhã é apenas o amanhã. E, na pior das hipóteses, terei aquele remedinho para me colocar pra dormir novamente e me salvar do buraco escuro que me coloquei. Ou que fui colocada. Eis a eterna dúvida.

E, com toda experiência de uma pessoa doente emocionalmente, depressiva para um português mais claro, gostaria de lembrar o quão breve é a nossa passagem pela Terra. E essa, só vale a pena se tivermos algo bom para deixar para as próximas gerações.

Não precisa de muito. Amor e empatia bastam.


ANA TERRA VENTURA FONSECA

Secretária Executiva

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